segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

Competência de leitura literária/Competência de leitura linguística

A competência de leitura consiste na capacidade que cada um tem de construir o sentido do texto durante a leitura. Nesta sequência, parece ser imprescindível que se desenvolva a competência da leitura linguística para depois poder usufruir de todas as ferramentas necessárias quando se vai ao encontro do texto literário. No entanto, a questão é algo mais complexa. Se a componente linguística (antes apelidada de competência comunicativa) corresponde ao conhecimento da língua como sistema nos níveis fonológico, morfossintático e semântico/lexical, a competência literária traduz o grau de conhecimentos que se deve ter para poder ler um texto literário. A este propósito, leia-se um texto de Carlos Ceia (http://www2.fcsh.unl.pt/edtl/verbetes/C/competencia_literaria.htm): “Este conceito permite-nos saber que existe uma competência linguística (competence/performance) que é comum a todos os falantes de uma língua, mas que não é suficiente para nos habilitar a ler criticamente um texto literário de forma tecnicamente correcta। Esta importação de um conceito restrito da gramática generativa, onde apenas diz respeito à formação de frases gramaticalmente correctas, para a literatura levanta algumas objecções: limita-se à recepção da obra de arte literária; é determinada apenas por factores culturais, ficando de fora a possibilidade de se adquirir geneticamente a competência literária, como está previsto no sistema de Chomsky; só pode ser adquirida por meio de um ensino especializado, ao contrário da competência linguística que o dispensa, porque podemos comunicar verbalmente sem termos sido formalmente ensinados para isso। De qualquer forma, o conceito deve entender-se apenas como uma forma de distinguir a capacidade de um indivíduo para leitura literária, que lhe permite reconhecer a especificidade de um texto literário, respeitando o modo e o género literário a que pertence, o contexto que o caracteriza e a tradição em que se inscreve. O conhecimento adquirido por um falante nativo da sua própria língua é de natureza dogmático: a linguística ocupa-se de dados finais sobre a forma e o sentido das palavras e das frases, não os interrogando ou refutando (tarefa da teoria literária — modo de expressão da competência literária), mas descrevendo o seu funcionamento. (…) Enquanto conhecimento técnico da língua, a competência linguística permite classificar as diferenças de sentido das frases, com o fim de estabelecer uma norma. A literatura não obedece a normas fixas nem a esquemas estruturais rígidos — se a linguística procura determinar a possibilidade de uma frase significar, a literatura parte da possibilidade de uma frase poder significar múltiplas coisas e de todos os sentidos possíveis poderem ser sujeitos a uma processo de leitura interpretativa. O sentido apreendido pela competência literária pode ser aberto, instável ou indeterminado, não sendo a sua natureza que calcula o nível de competência do leitor. O que acontece é precisamente o contrário: é a competência do leitor que pode trabalhar (e dizer) todas as possibilidades de sentido de um texto literário, sem se pretender estabelecer uma norma geral. Uma frase deve ter sempre o mesmo sentido para todos os linguistas, mas o mesmo texto não terá certamente o mesmo sentido para todos os leitores.” Aceda aqui à plataforma.

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